É nos terrenos baldios de Covas que se desenvolve uma atividade ancestral na região do Barroso: a apicultura.
Há muitos séculos que neste território humanos, abelhas e plantas vivem em simbiose. A apicultura depende das abelhas e da variedade de espécies assegurada pela polinização realizada por elas e por outros insetos. Todas estas relações dependem da água de que tanto as abelhas como as plantas necessitam. Trata-se de um ecossistema mantido ao longo de muitos séculos, mas cujo equilíbrio é sensível a transformações ambientais bruscas.
Devido à plantação de pinhal, muitos aspetos específicos da geografia dos baldios ficam ocultos pela cobertura arbórea. O pinhal também reduz o habitat de muitas plantas arbustivas de que as abelhas dependem.
Por isso, com o objetivo de melhor retratar as suas práticas apícolas ancestrais, procedemos à modelação tridimensional dos baldios de Covas do Barroso, tendo por referência imagens da paisagem após os incêndios de 2011.
Esta visualização permite dar uma ideia de como seria o território sem a floresta de pinhal, um território dominado por arbustos como a giesta, o tojo e as urzes, de cujas flores as abelhas se alimentam.
As imagens que estamos a ver são feitas a partir da zona da corga dos Anhos, a sul do Rio Covas, com vista para Portela de Brandelos. Do lado direito, vemos, em baixo, o rio Covas e a zona do rio conhecida como poço das Lameiras.
O Alto do Crasto (Covas do Barroso) e o Alto dos Picoutos (Romainho) podem ser vistos à distância.
Em maio de 2026, conversámos com vários apicultores de Covas de Barroso. Na filmagem que se segue, vemos Carlos Libo a falar sobre a importância das diferentes áreas dos baldios para a produção apícola, bem como do ecossistema para a produção de mel.
Usando uma representação tridimensional do território, vamos agora viajar desde a Casa do Povo no Centro de Covas, até a um dos muitos apiários de Carlos Libo, para continuar a entrevista.
Sobrevoando Covas do Barroso ao longo do corgo dos Lamais que, como o nome indica, rega muitos dos lameiros de Covas – vamos descendo em direção ao rio.
Progressivamente afastamo-nos das zonas agrícolas e entramos nos terrenos baldios.
Já perto do apiário sobrevoamos a cascata dos Penadouros.
O apiário que vamos visitar está localizado numa encosta do Rio Covas, virada a sudoeste, soalheira e protegida dos ventos, acima da presa do Valdasnela.
Carlos Libo
A partir do diálogo entre as tecnologias de teledetecção e os saberes e práticas locais, iniciado neste projeto, foi possível identificar mais de 30 silhas nos Baldios de Covas do Barroso, bem como iniciar o estudo e a reflexão sobre a sua importância atual e histórica.
Uma silha é um muro apiário, ou seja, um recinto circular ou em U invertido, construído em pedra, e cuja origem remonta à Idade Média.
Eram originalmente construídas para abrigar colmeais (cortiços) e protegê-los contra animais, nomeadamente os ursos «pardos» que outrora eram comuns nestas terras.
Atualmente, muitas silhas continuarm a proteger as colmeias contra outros animais de menor porte, como javalis ou texugos, rebanhos de ovelhas e cabras, contra o vento e contra os fogos.
Colocadas em encostas viradas a sudoeste, as silvas situam-se sempre junto a pequenos cursos de água.
A sua inserção na encosta, através de socalcos em forma de anfiteatro, permite isolar as colmeias da humidade do solo. As suas paredes, com até 2 metros de altura, têm também um efeito microclimático.
A história das silhas vai além do mel. Um subproduto fundamental da produção de mel é a cera, produzida pelas abelhas para construir as colmeias. No período medieval, desempenhava um papel muito importante: era uma mercadoria crucial devido à sua utilização na fabricação de velas para a Igreja, sendo associada à iluminação divina, mas servindo também como moeda de troca.
A cera era igualmente utilizada na produção de ex-votos e de moldes de braços e pernas feridos, utilizados em peregrinações e rituais religiosos, em oração pela cura. Era também usada como imposto a pagar pelas comunidades locais — os coutos — ao Arcebispo de Braga. A aldeia de Dornelas, vizinha de Covas do Barroso, deve o seu nome à existência de uma pequena ‘dornela’ de pedra, utilizada para medir a tributação de cera a ser enviada anualmente. A cera era por isso fundamental para a economia religiosa local e para diversas relações sociais.
Agora estamos a avançar lentamente pelas montanhas, por caminhos comuns utilizados pelos apicultores locais. Partimos da silha de Piago Negro, que fica perto da ponte do mesmo nome, sobre o Rio Covas.
Sobrevoando o Corgo do Piago Negro e, de seguida, o Corgo da Rabaça, o nosso destino é outra silha nas imediações, localizada nas encostas de um pequeno corgo acima da presa do Capador. Esta silha pertence ao Tio Augusto.
O Tio Augusto é um dos mais antigos apicultores de Covas do Barroso. Conversamos com ele sobre as diferentes silhas que ainda mantém em uso. A conversa abaixo teve lugar numa das suas silhas, localizada a sul do Rio Covas, na encosta acima da Presa do Capador:
A presença de múltiplas silhas nos seus terrenos baldios é evidência de que estas terras eram um centro de produção melífera, uma prática com origens ancestrais, e que se encontra agora ameaçada pela Mina do Barroso.
Um relatório sobre as Silhas de Covas do Barroso produzido pelo projeto Visualizing Relations to Land (VRL) em colaboração com o Grupo de Investigação Territorial (GIT) e Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB) foi apresentado à CM Boticas.