Metodologia / Toolkit VRL
Esta secção abre portas para os bastidores deste website. Queremos partilhar técnicas, recursos e reflexões que podem ser úteis a outras que as queiram usar noutras lutas pela visibilização e valorização dos territórios e da riqueza das suas relações eco-sociais.
Visualizing Relations to Land
Este trabalho decorre num contexto de luta pela preservação da vida, da memória e dos potenciais deste território para um planeta sustentável. A ameaça hoje vem de um projeto de mineração de lítio a céu aberto nestas terras comunitárias, que coloca em risco modos de vida, ecossistemas e paisagens culturais construídas ao longo de séculos. No passado, esses modos de vida foram atingidos por outros processos destrutivos como a junta de colonização interna, o plano de fomento florestal ou as multiplas barragens. No futuro, as ameaças às ligações ancestrais ao território serão outras. Por isso, o fortalecimento da visibilidade dessas relações é um projeto contínuo e de futuro, e não apenas uma luta pela preservação do passado.
A visualização de relações com a terra pode ter em vista participar em/ou contestar Avaliações de Impacto Ambiental (AIA) ou servir para esclarecer a opinião pública através de meios de comunicacão e meios académicos. Produzidos com software de motores de jogos, os ambientes digitais permitem a espacialização de histórias orais em localizações geográficas concretas, bem como a geolocalização e a integração de fontes de dados heterogéneas, tais como fotografias históricas, testemunhos e artefactos.
Um dos aspetos principais desta metodologia é proporcionar ambientes imersivos e pistas visuais que ajudam a evocar memórias de uso e de práticas da terra. Nesse sentido, servem como instrumentos de elicitação para processos de memoria coletiva.
Em Covas do Barroso, e em parceria com o CDBCovas do Barroso começámos pela vizualização do territorio em três dimensões, explorado num ecrã de grande dimensão, e usando o Google Earth. Isto permitiu gerar conversas sobre diferentes aspetos dos vastos territórios baldios, nomeadamente a sua toponímia, que está em risco de ser perdida e esquecida. Ao observar o território, as pessoas vão contando histórias de práticas e vivências, que vão desde observações sobre modos de trabalho até curiosidades sobre eventos passados — conversas que, sem estarem a olhar para o território, muitas vezes não vêm à cabeça das pessoas entrevistadas.
Durante esse processo surgiu espontaneamente um trabalho de recuperação da toponímia dos baldios, territórios comuns que aparecem como vazios na imaginação cartográfica dos projetos que pretendem justificar a utilização deste terreno como zona de sacrifício. Este processo de nomeação não serve apenas para contestar as representações do Estado — que apresentam estas terras como vazias — mas também para gerar conversas entre gentes e despertar a autoestima em processos de transmissão intergeracional de saberes. Parte deste trabalho levou a impressão de um mapa da toponímia, afixado na Tasca da Formiga por altura da festa da aldeia, quando vários emigrantes regressam para visitar Covas. A nossa expectativa foi gerar interesse nas populações, principalmente, nas mais novas, de forma a atrair maior envolvimento na defesa do território perante a mineração ou outras ameaças extrativistas.
A possibilidade de consultar imagens aéreas e de satélite desde os anos 80 também permite voltar no tempo e observar diferentes configurações do território. Foi através deste método que foi possível encontrar muitas das silhas – muros apiarios – que se encontram nos baldios de Covas, visíveis nas imagens a seguir aos fogos de 2011.
O Google Earth permite igualmente integrar outras fontes de informação, desde que em formato vetorial (.kmz, .kml). No nosso caso, foi útil importar os dados das propostas de concessão da Savannah Resources — disponíveis no EIA submetido — assim como os dados da mais recente Servidão Administrativa, pela qual o governo impõe à Savannah o acesso aos territórios baldios e privados dos habitantes de Covas do Barroso.
Ao mesmo tempo, os dados produzidos no Google Earth — por exemplo, os contornos vetoriais de todas as silhas ou os dados de toponímia — podem ser descarregados nesses formatos de forma a serem abertos em programas de informação geoespacial, como o QGIS (que recomendamos por ser Open Source). O QGIS permite a integração e a análise de dados topográficos provenientes das mais variadas fontes, tais como mapas históricos, fotografias, cartas militares, imagens aéreas, de drone, de satélite ou de radar, possibilitando a produção de análises estatísticas, numéricas ou visuais. Existem múltiplas fontes gratuitas de dados geoespaciais online, quer provenientes de organizações governamentais, quer de ONGs e de organizações locais. No caso de Covas do Barroso, foi igualmente importante analisar os cursos de água no QGIS, utilizando dados do Modelo Digital de Terreno (MDT) disponíveis em plataformas de acesso livre para o cálculo, tais como o USGS EarthExplorer e o Copernicus Sentinel-1, ou, no caso de dados de maior resolução, a partir do portal online gerido pela Direção-Geral do Território.
OpenStreetMap
SNIG (Sistema Nacional de Informação Geográfica)
ERSI
SOAR
Para a reconstrução de aspetos do território dos baldios aos quais não é possível aceder fisicamente — nomeadamente territórios que mudaram ao longo dos anos, construções já demolidas, ou áreas às quais o acesso é restrito devido a privatizações e cercamentos — usámos métodos de reconstrução em 3D, recorrendo a softwares como Blender ou Unreal Engine, ou softwares de fotogrametria, e a referências de testemunhos orais ou fotografias antigas. Deste modo, é possível reconstruir espaços e ambientes, permitindo que surjam conversas sobre o passado que não emergiriam sem estas pistas visuais. No caso de Covas, a maior parte do território está acessível, pelo que este aspeto não foi central, mas poderá revelar-se importante no futuro ou noutros contextos.
BlenderGIS
Plug-in MTree para o Blender
Introdução ao Unreal Engine
RealityScan
Luma 3D
GBO
Estas metodologias têm potencial para ser aplicadas noutras lutas em torno da terra e do território — não apenas em contextos rurais, mas também em lutas urbanas em torno da gentrificação, de expulsões e do direito à cidade. O seu denominador comum é a análise coletiva do território e a recuperação da memória da terra como instrumento de resistência.
Exemplos e Referências
. Forensic Architecture
. Autonoma
. Borderforensics
. Interprt
. Earshot
. GIT
Perigos e
precauções
É fundamental
ter consciência dos riscos associados à utilização de quaisqueres ferramentas de representação:
A utilização de dados do Google Earth, de satélite, cartográficos, fotografias aéreas, mapas históricos ou outros não deve ser feita sem se tentar compreender a sua origem, o contexto em que foram produzidos e as suas limitações. Toda a informação pode ser utilizada, inclusive a produzida pelas empresas mineiras, desde que se saiba o motivo e o objetivo.
Além disso, é importante verificar se há o risco dos dados produzidos e publicados pelo nosso trabalho (como entrevistas, locais de artefactos arqueológicos, práticas e costumes) serem apropriados por empresas ou pelo Estado para servir interesses contrários aos das comunidades locais. Por conseguinte, a sua divulgação deve ser sempre ponderada caso a caso, mantendo um diálogo com as diferentes partes que possam ser afetadas.
Existe também o risco de transmitir a ideia de que estas representações ou visualizações mostram a totalidade do território — o que é muito perigoso, pois pode gerar a impressão de que não há mais nada para além do que foi mapeado. O uso de testemunhos com identificação das pessoas pode expô-las indevidamente; por isso é importante conversar com sensibilidade e garantia de autonomia das interlocutoras, garantindo sempre a possibilidade de anonimizar e/ou remover uma entrevista ou história, caso as circunstâncias assim o exijam no futuro.
Existe ainda o risco de tecnologias de visualização digital se sobreporem a outros métodos de transmissão de conhecimento — corporais, gestuais, sociais, emocionais e incorporados — visto que tem maior capacidade para ser replicadas e circular nos media digitais.
A utilização de dados do Google Earth, de satélite, cartográficos, fotografias aéreas, mapas históricos ou outros não deve ser feita sem se tentar compreender a sua origem, o contexto em que foram produzidos e as suas limitações. Toda a informação pode ser utilizada, inclusive a produzida pelas empresas mineiras, desde que se saiba o motivo e o objetivo.
Além disso, é importante verificar se há o risco dos dados produzidos e publicados pelo nosso trabalho (como entrevistas, locais de artefactos arqueológicos, práticas e costumes) serem apropriados por empresas ou pelo Estado para servir interesses contrários aos das comunidades locais. Por conseguinte, a sua divulgação deve ser sempre ponderada caso a caso, mantendo um diálogo com as diferentes partes que possam ser afetadas.
Existe também o risco de transmitir a ideia de que estas representações ou visualizações mostram a totalidade do território — o que é muito perigoso, pois pode gerar a impressão de que não há mais nada para além do que foi mapeado. O uso de testemunhos com identificação das pessoas pode expô-las indevidamente; por isso é importante conversar com sensibilidade e garantia de autonomia das interlocutoras, garantindo sempre a possibilidade de anonimizar e/ou remover uma entrevista ou história, caso as circunstâncias assim o exijam no futuro.
Existe ainda o risco de tecnologias de visualização digital se sobreporem a outros métodos de transmissão de conhecimento — corporais, gestuais, sociais, emocionais e incorporados — visto que tem maior capacidade para ser replicadas e circular nos media digitais.
Dados estes riscos sugerimos que:
Se devem usar estas técnicas sempre em
composição com múltiplos outros modos de conhecimento e expressão, ou seja, em
polifonia.
Se deve trabalhar coletivamente com as pessoas e organizações que podem ser afetadas pela divulgação destas informações.
Se deve passar por várias etapas de reflexão sobre o que comunicar, como e porque.
Mas sugerimos também que não devemos deixar que a necessária reflexão crítica sobre estes processos impeça de continuar a criar e inventar modos de investigação coletiva sobre o território e de experimentar métodos para disputar os argumentdos das empresas mineradoras, do estado ou de quaisquer outras forças extrativistas.
Se deve trabalhar coletivamente com as pessoas e organizações que podem ser afetadas pela divulgação destas informações.
Se deve passar por várias etapas de reflexão sobre o que comunicar, como e porque.
Mas sugerimos também que não devemos deixar que a necessária reflexão crítica sobre estes processos impeça de continuar a criar e inventar modos de investigação coletiva sobre o território e de experimentar métodos para disputar os argumentdos das empresas mineradoras, do estado ou de quaisquer outras forças extrativistas.